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Fundador de Casas Bahia começou com charrete, mirou pobre e cobrava o dobro

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Fundador de Casas Bahia começou com charrete, mirou pobre e cobrava o dobro

Daniele Madureira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

31/12/2020 12h17

Célebre pelos bordões “Quer pagar quanto?” e “Dedicação total a você”, a rede de lojas de móveis e eletrodomésticos Casas Bahia voltou aos holofotes em dezembro. Mas o motivo não tem nada a ver com as promoções de Natal ou os saldões de fim de ano.

A empresa fundada em 1958 e que hoje integra a holding listada em Bolsa Via Varejo ganhou destaque pelo envolvimento do nome do seu fundador, Samuel Klein, morto em 2014, e de um dos seus filhos, Saul Klein, ex-executivo da Casas Bahia, em um supostos esquemas de prostituição. Saiba um pouco da história da empresa a seguir.

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Mascate com charrete em SP

“A riqueza do pobre é o nome”, dizia o polonês descendente de judeus Samuel Klein, para justificar a ideia que deu origem a uma das maiores redes de lojas do país.

Depois de chegar ao Brasil em 1952, após passar por um campo de concentração nazista, casado e com o filho mais velho Michael nos braços, Samuel começou a trabalhar como mascate com uma charrete pelas ruas de São Paulo, vendendo cobertores e outros artigos de cama, mesa e banho.

Quanto mais pobre, mais honesto

A migração do Nordeste do país para a capital paulista era intensa, devido aos incentivos federais para a instalação da indústria automobilística. Samuel despertou para as necessidades do povo pobre e migrante de adquirir bens de maior valor para montar sua casa em parcelas, na forma de prestações de um carnê.

Posso dizer que quanto mais pobre uma pessoa, mais honesta ela é.
Samuel Klein, ao dizer, em 2001, que não temia calotes dos clientes

Acertou ao priorizar pobres

“Como empreendedor, Samuel Klein teve uma visão excepcional, ao focar em um público de baixa renda, que até então estava fora do radar do varejo”, afirmou o consultor Eugênio Foganholo, sócio da Mixxer Desenvolvimento Empresarial.

Era um contexto de maior urbanização, em sintonia com o crescimento da indústria.

Quem passava a ter uma renda maior queria melhorar a qualidade de vida por meio dos bens de consumo, como geladeira, fogão, móveis, televisor. Samuel foi muito perspicaz em perceber essa parcela da sociedade se formando nas décadas de 50 e 60 e se instalar no ABC paulista.
Eugênio Foganholo

Comprava por 100, vendia por 200

No comando das Casas Bahia, que se tornaram em um momento deteminado a maior varejista de móveis e eletrodomésticos do Brasil, o lendário Samuel Klein, em geral vestido com camisas polo e sandálias franciscanas nos pés, dizia: “Sempre comprei por 100 e vendi por 200”.

Abaixo dele, de um lado, o primogênito Michael, que cuidava da administração e das finanças da empresa, e de outro, Saul, o segundo dos quatro filhos (Samuel teve ainda Eva e Oscar, este último já falecido), que cuidava da parte comercial e de marketing, sendo considerado o “cérebro” da varejista.

Casas Bahia viraram Via Varejo

O refinado Michael e o popular Saul nunca se bicaram —até porque, na tradição judaica, o primogênito sempre assume o comando. Em 2009, Saul vendeu os 25% que detinha na companhia para o irmão.

Em dezembro do mesmo ano, as Casas Bahia entraram em um acordo com o seu principal rival na época, o Pão de Açúcar, então dono do Ponto Frio, para criar o que hoje é a Via Varejo.

Família se arrepende de acordo

A troca de ações deu origem a uma varejista com faturamento de R$ 18,1 bilhões e 1.015 lojas. As Casas Bahia ficariam com 49% da nova companhia, enquanto o Pão de Açúcar seria dono de 51%, por meio da Globex (Ponto Frio e Extra Eletro).

Mas o acordo azedou quatro meses depois. Os Klein contestavam o arranjo final, que os deixou com uma fatia de 47%, abaixo do esperado. Em 2012, a família quis elevar sua fatia para 70%, mas a ideia foi rejeitada pelo francês Casino, dono do Pão de Açúcar.

No ano seguinte, ocorreu a oferta de ações da já batizada Via Varejo e, nela, a família Klein reduziu sua participação de 47% para 28,2%, fatia que mais tarde caiu para 25,2%.

Retorno da família ao comando

Até que, em junho de 2019, a família Klein, liderada por Michael, comprou as ações do Pão de Açúcar sob a Via Varejo, depois de se unir a dez fundos de investimento. Com a compra, a família Klein voltou a ter poder de decisão na empresa.

Michael, então presidente do conselho até o segundo trimestre de 2020, passou o bastão para o filho, Raphael Klein —irmão de Natalie, dona da grife NK Store, que nunca se envolveu nos negócios da família. A missão de Raphael é encabeçar a transformação digital da Via Varejo, que perdeu a liderança para o Magazine Luiza.

Magazine Luiza entendeu os novos clientes e venceu

“Nos últimos dez anos, enquanto a Casas Bahia procurava se acertar dentro da Via Varejo, o Magazine Luiza avançava, sintonizado com as mudanças de comportamento do consumidor”, disse Foganholo.

Hoje a Via Varejo tem 1.044 lojas no país (849 Casas Bahia). Em 2019, teve prejuízo de R$ 479 milhões. Já o Magazine Luiza soma 1.200 lojas e, em 2019, lucrou R$ 921,8 milhões.

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