Sento-Sé, Memórias de uma cidade submersa é um livro-reportagem que foi pensado como projeto pessoal antes de começar o curso de Comunicação Social em Jornalismo em Multimeios. A ideia de pesquisar sobre Sento-Sé nasceu das histórias que ouvia, quando ia passar as férias no povoado Brejo da Brásida, terra natal dos meus pais e onde passei os meus primeiros sete anos de vida.

Adzamara Amaral

Durante meu período de estudante do ensino fundamental e médio, o melhor presente de natal que recebia era ir passar as férias de final de ano no Brejo. Nestas férias, em noites enluaradas, as crianças, jovens e adultos colocavam esteiras de taboa nos terreiros para contar causos e histórias do tempo de Lampião, da passagem da Coluna Prestes pelo município, a inundação da cidade, lendas e causos.
Quando ouvia estas histórias o que me vinha à mente era que se elas fossem catalogadas daria um ótimo livro. Quando passei no vestibular de Comunicação Social-Jornalismo em Multimeios, no ano de 2007, cheguei ao primeiro período e descobrir que no Trabalho de Conclusão de Curso poderia escolher o assunto que eu desejava.
Diante da rica história do município revivi parte de tudo aquilo que havia ficado retido no meu inconsciente, mas que precisava de um conhecimento formal para poder escrever e fui buscar no Jornalismo e na História Oral meios para retratar um período que foi um divisor de águas para os municípios de Sento-Sé, Pilão Arcado, Casa Nova e Remanso, qual seja: a inundação deste município para dar origem ao lago de Sobradinho.
O livro-reportagem foi escrito mediante as técnicas de entrevistas jornalísticas a senhores e senhoras – a maioria idosos – que moraram e vivenciaram o que foi esta cidade, que ficou submersa.
Procurei, por meio das técnicas de reportagem e percorrendo os caminhos da memória, retratar um local que não mais existe fisicamente – mas permanece vivo nas lembranças. Mas, caso não haja uma catalogação dos dados do município, das vivências, a história da cidade poderá se perder. Como as
pessoas que guardam estas memórias já estão em idade avançada, também poderá não haver registro para as futuras gerações acerca do deslocamento da população, do cotidiano da cidade nem da cultura popular.
Ao finalizar o livro, pude conhecer a velha Sento-Sé através de fotos e com o avanço da pesquisa me debrucei sobre artigos, dissertações, teses e reportagens e tive a oportunidade de entrevistar pessoas que me fizeram mergulhar num tempo passado. Pude conhecer como era a vida do povo ribeirinho naquele pedaço de chão pacato e simples, onde viviam, criavam seus filhos e criaram laços de amizade e afetividade e, de repente, tiveram que sair. Ao molhar os pés nas águas doces do velho Chico, procurei imaginar as noites de lua cheia quando os pescadores saíam para pescar e fiquei a imaginar as lendas e as histórias que as pessoas contavam, sentadas no “toco da mentira”.
Neste livro, os entrevistados revivem os caminhos pelos quais passaram, as casas que moraram e as pessoas que conviveram com eles. Muitos ficaram emocionados ao lembrar os parentes, outros demonstram indignação ao pensar nos processos judiciais para recuperar bens financeiros. Ao ouvir os antigos moradores falarem do que ficou para trás, é perceptível, diante de seus gestos e falas, a saudade que eles sentem dos tempos de outrora.
Diante do afeto e da vontade de contribuir com este trabalho, agradeço a todos os entrevistados que foram de fundamental importância para a realização desta pesquisa, a exemplo de Judite Lopes Ribeiro e do advogado André Sento-Sé que me emprestaram o acervo particular de fotografias do Sento-Sé Velho e, em especial ao meu pai e minha mãe por ter me dado força no momento que pensei em desistir; à professora Andréa Cristiana pela orientação e por me fazer refletir muito sobre o objeto de estudo e o papel do jornalista e pesquisador no registro deste período da história da região; e a Emerson Rocha, por ter viajado comigo até Sento-Sé para fotografar a cidade. A todos vocês, muito obrigada.

Por Adzamara Amaral do sentosenoticias.com